A Indústria das Testagens Diagnósticas

Diagnóstico de Autismo em Adultos: Como Não Cair em “Armadilhas” Diagnósticas

Você é uma pessoa já na terceira ou quarta década de vida, é funcional, independente, com vida profissional e pessoal estruturada. Então, por que um psicólogo sugeriu que você pode ter autismo e ofereceu testes caros para “confirmar”?

Cuidado: Você pode estar prestes a cair em uma armadilha diagnóstica que afeta muitos adultos funcionais no Brasil, além das crianças que são direcionadas para incapacitação devido aos dignósticos sobrios plantados nos laudos e na “cabeça” dos familiares. 

O Modus Operandi das Clínicas Multiprofissionais

Existe um padrão preocupante em parte das clínicas e consultórios que oferecem “testagens neuropsicológicas” e terapias para diagnóstico de autismo, que agora se chama Transtorno do Espectro Autista (TEA), e aí que talvez esteja a oportunidade para com a palavra “espectro”, colocarem outros diagnóstico para dentro do TEA que não tem “cara”, mas tem critérios bem definidos.

Como Funciona o “Esquema”

  1. Diagnóstico Inflacionado: Testes psicológicos “auxiliares” frequentemente induzem a falsos diagnósticos de TEA (Transtorno do Espectro Autista), frequentemente englobando também o TDAH, a Deficiência Intelectual (DI), Transtorno Desafiador Opositor (TOD), transtornos de personalidade, fobia social e até estados pós-esquizofrenia.
  2. Consequências Financeiras Evidentes: Ao diagnosticar autismo, os profissionais indicam terapias muito mais frequentes do que em outros transtornos — gerando maiores ganhos em honorários.
  3. Encadeamento de Serviços e Geração de Demadas: Diagnóstico → Terapias intensivas → Ações judiciais contra convênios e/ou Estado para cobrir tratamentos de um diagnóstico que pode estar completamente tendencioso ou equivocado.

Por Que Isso Acontece?

  • Apenas os Médicos estão legalmente autorizados a fazerem os diagnósticos da CID ou do DSM, Psicólogos não têm autoridade legal para fazer diagnóstico de transtornos psiquiátricos
  • Neurologistas, frequentemente, não se sentem confortáveis diagnosticando transtornos psiquiátricos
  • Surgiu uma “parceria” entre parte da psicologia e neurologia onde testes psicológicos “auxiliam” o diagnóstico
  • Talvez parte da psicologia tenha percebido que encaminhar aos Psiquiatras, estes especialistas nestes transtornos, logo fecham o diagnóstico e começam tratamento, não oportunizando o faturamento com as testagens mais frequentemente solicitadas pela neurologia
  • Resultado: Um sistema que lucra com diagnósticos imprecisos e que acaba oferecendo terapias incongruentes com as necessidades do paciente e que tem resultado no que temos verificado clinicamente na comunidade

A Verdade Sobre o Diagnóstico de Autismo: Perspectivas Críticas de Especialistas

O Alerta de Allen Frances e Outros Críticos

O Dr. Allen Frances, presidente do grupo de trabalho do DSM-IV e crítico contundente da inflação diagnóstica no DSM-5, alertou especificamente sobre o risco de superdiagnóstico de autismo. Em sua obra crítica ao DSM-5, Frances documenta como mudanças nos critérios diagnósticos levaram a um aumento significativo de diagnósticos, frequentemente sem justificativa clínica adequada.

Referências e Fontes:
  • Frances, A. (2013). Saving Normal: An Insider’s Revolt Against Out-of-Control Psychiatric Diagnosis, DSM-5, Big Pharma, and the Medicalization of Ordinary Life. William Morrow.
  • Frances, A. (2012). “DSM 5 is Guide Not Bible — Ignore Its Ten Worst Changes.” Psychology Today.
  • Frances, A. (2010). “Opening Pandora’s Box: The 19 Worst Suggestions for DSM5.” Psychiatric Times.
Outros Pesquisadores Críticos
  • Timimi, S., & McCabe, B. (2016). Rethinking ADHD: From Brain Disorder to Dimensional Differences. Crítica sobre o superdiagnóstico de transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo autismo.
  • Szasz, T. (2010). The Myth of Mental Illness: Foundations of a Theory of Personal Conduct. Análise crítica sobre a medicalização de comportamentos normais.
  • Horwitz, A. V., & Wakefield, J. C. (2007). The Loss of Sadness: How Psychiatry Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder. Documenta como critérios diagnósticos amplos levam a superdiagnóstico.

Quem Pode Diagnosticar?

Apenas médicos — de qualquer especialidade — têm autoridade legal para diagnosticar transtornos psiquiátricos, incluindo TEA. Psicólogos podem auxiliar com avaliações, mas o diagnóstico final é responsabilidade do médico que precisa muito da atuação clínica (cuidar/tratar) da psicologia, pois o diagnóstico já está pronto.

Os Critérios Reais do DSM-5 para TEA

Se você é funcional e independente, é muito provável que não preencha aos reais critérios diagnósticos:

Critério A: Déficits Persistentes em Comunicação Social

  • Prejuízo em comunicação não-verbal (contato visual, linguagem corporal, gestos)
  • Dificuldade em desenvolver e manter relacionamentos
  • Rigidez afetiva — incapacidade de modular, entender e expressar afetos

Aqui cabe destacar que no TEA, como trouxe o antigo T. de Asperger para tentro do TEA, o prejuízo de comunicação não é obrigatório em autistas com menor necessidade de suporte, mas o componente socioafetivo sempre estará presente no TEA. Também vai estar na personalidade esquizóide, mas esta última, não terá os critérios B, C e D.

Se você não tem isso, já não atende ao critério A. E sem o critério A, o diagnóstico não se sustenta mais, se existem outros sintomas do critério B, a entrevista e exame dos estado mental apurado encontrará outro diagnóstico que explica os achados.

Critério B: Padrões Restritos e Repetitivos de Comportamento

  • Movimentos estereotipados ou maneirismos
  • Insistência em sameness (mesmices ou rotinas rígidas)
  • Interesses restritos e intensos
  • Reatividade sensorial atípica

Excentricidades ocasionais não são o mesmo que disfuncionalidade. Nota-se que frequentemente muitos diagnóstico são feitos olhando somente para o sinais do critério B, e isso não está certo, pois primeiro há de ser atendido o critério A.

Critério C: Sintomas Presentes Desde a Infância

  • Os sinais devem ter sido notados antes dos 3 anos de idade
  • Não é “descobrir autismo” aos 20, 30 ou 40 anos sem um histórico fidedígno de sinais na infância

Critério D: Prejuízo Significativo

  • Os sintomas devem causar prejuízo clinicamente significativo em funcionamento social, ocupacional ou outras áreas importantes
  • Como considerar deficitária uma pessoa que se formou, tem carreira estabelecida e relacionamentos? Me responde o que você acredita nos comentários

Critério E: Exclusão de Outros Diagnósticos

  • Os sintomas não são melhor explicados por deficiência intelectual ou outro transtorno do neurodesenvolvimento pensando em crianças, mas adultos temos que lembrar até da esquizofrenia, que depois de controlados os sintomas positivos (alucinações e delírios), ficam os sintomas negativos (abulia, embotamento afetivo, pobreza do pensamento e comunicação, movimentos repetitivos, discinesias e falta de pragmatismo), mas não contemplam o critério C, então não é TEA, será um dos 4 As de Bleuler: Alogia, Autismo, Ambivalência Afetiva e Afeto Embotado.

O Que Realmente Pode Estar Acontecendo

Se você está enfrentando dificuldades na esfera psíquica, é muito mais provável que esteja lidando com:

  • Depressão — especialmente em mulheres, frequentemente subdiagnosticada
  • Síndrome de Burnout — esgotamento profissional e emocional
  • Transtorno de Personalidade Esquizoide — preferência por isolamento, indiferença a críticas/elogios, comportamento que impressiona os outros, mas não causa sofrimento à pessoa
  • Transtorno de Personalidade Borderline – que tem grandes prejuízos sociais, mas por uma ocilação de humor muito exacerbada, ao contrário do TEA que o humor e afeto tendem ser mais rígidos.
  • Ansiedade Social — que causa prejuízos sociais por excessiva valoração às críticas, enquanto que, no TEA os prejuízos são por indiferença afetiva.

Nenhum desses diagnósticos justifica terapias intensivas de 5 ou até 15 mil reais mensais como tive relados de pacientes vindos de outros serviços. 

Imagine:

Um diagnóstico preciso — baseado em critérios reais, não em testes que lucram com resultados positivos
Tratamento apropriado — psicoterapia com profissional que enxerga o mesmo diagnóstico do seu médico
Economia de recursos — evitando terapias desnecessárias e caras e realmente investindo em sua saúde
Autonomia informada — entendendo realmente o que você tem e por quê
Profissionais alinhados — médico e psicólogo trabalhando juntos, não em conflito

Isso é possível. Mas requer que você seja um paciente informado e crítico. 

Como Proteger Sua Saúde Mental e Investir em sua Saúde

1. Procure Diagnóstico Médico Primeiro

  • Consulte um médico — adultos um clínico geral e crianças um pediatra, se tiver acesso aos especialistas, o psiquiatra deve ser considerado para os problemas comportamentais e emocionais, enquanto que o neurologista seria para problemas motores, sentitivos, dores de cabeça, convulsões e desmaios
  • Descreva seus sintomas com clareza, leve relatórios da escola e terapeutas, além de familiar de sua confiança para participar da entrevista, o que ajuda enormemente o médico no diagnóstico
  • Peça que o médico avalie você conforme os critérios do DSM-5 ou da CID
  • Obtenha um diagnóstico escrito antes de submenter-se a testagens neuropsicológicas

2. Desconfie dos Sinais de Alerta

🚩 Psicólogo oferecendo diagnóstico sem solicitação médica prévia
🚩 Testes caros como “necessários” para confirmar diagnóstico já feito no médico
🚩 Indicação imediata de terapias intensivas (3-5x por semana)
🚩 Pressão para iniciar tratamentos antes de confirmação diagnóstica
🚩 Profissionais que discordam, sem embasamento no DSM, do diagnóstico do médico de sua confiança

3. Busque por Profissional Alinhado Técnicamente ao seu Médico

Isso é crucial: Se seu médico diagnosticou p. ex. depressão e o psicólogo insiste que você tem autismo, o tratamento não funcionará bem.

  • Procure um psicólogo clínico que vislumbre o mesmo diagnóstico do seu médico ou mude de médico ou de terapeuta.
  • Peça referências de profissionais que trabalhem com depressão, ansiedade ou o diagnóstico específico que você recebeu
  • Evite para sua terapia os psicólogos que atuam fazendo “Testes Neuropsicológicos”, estes tem melhor faturamento com testes e isso pode gerar um desintesse na atuação clínica em geral.
  • Psicoterapia eficaz requer alinhamento entre médico e psicólogo

4. Questione e Analise

  • Não aceite diagnósticos sem explicação clara dos critérios
  • Peça ao profissional que explique especificamente como você atende aos critérios diagnósticos
  • Se não atender aos critérios, questione por que está sendo diagnosticado
  • Se você tem capacidade de ler e entender este texto e/ou também de debater sobre seus sinais e sintomas, muito provavelmente você não tem TEA
  • Você tem direito a entender seu próprio diagnóstico

5. Conheça Seus Direitos

  • Diagnósticos de doenças ou transtornos psíquiátricos são responsabilidade do médico, não do psicólogo, estes sim tem muito maior propriedade quanto ao desenvolvimento e comportamento não patológico.
  • Testes psicológicos são auxiliares, não definitivos, eu particularmente geralmente não os solicito
  • Você pode buscar segunda opinião, eu sempre incentivo isso, pois posso estar errado
  • Desconfie de profissionais que lucram mais com diagnósticos específicos

⚠️ A Realidade Incômoda

Existem profissionais bem-intencionados. Mas também podem existir clínicas que:

  • Lucram com diagnósticos inflacionados
  • Indicam terapias desnecessárias
  • Criam um “looping infinito” de testes e terapias
  • Geram ações judiciais contra convênios e Estado com base em diagnósticos limítrofes, duvidosos ou em investigação, e talvez, até propositalmente plantados, visto que o papel aceita tudo.

Você é livre para fazer suas escolhas e acreditar no que preferir. Mas faça isso com informação, atualmente as responsabilidades são compartilhadas, se tudo estiver errado, posteriormente não poderá imputar a culpa somente aos profissionais, pois sua participação acontece de fato nas descisões diagnósticas e terapêuticas. 


📚 Aprofunde Seu Conhecimento – Estude

Se você quer entender realmente como funciona o diagnóstico de autismo em adultos, quais são os critérios reais, como diferenciar autismo de outros transtornos, e como não cair em armadilhas diagnósticas:

👉 Assista a aula completa sobre diagnóstico de autismo

Nesta aula, você aprenderá:

  • Os critérios reais do DSM-5 para TEA
  • Como diferenciar autismo de depressão, ansiedade e transtornos de personalidade
  • O papel do médico vs. o papel do psicólogo no diagnóstico
  • Como identificar diagnósticos inflacionados
  • Perguntas que você deve fazer ao seu profissional
📖 Referências Adicionais para Aprofundamento

Para quem deseja explorar mais sobre a crítica ao superdiagnóstico em psiquiatria:


🔔 Conclusão: Você Merece Clareza

Se você é uma pessoa funcional, independente, com vida profissional e pessoal estruturada, mas está sendo diagnosticada com autismo e indicada para terapias intensivas caras, pause e questione.

Um bom profissional não se ofenderá com suas perguntas. Um bom profissional explicará claramente por que você atende aos critérios diagnósticos. Um bom profissional alinhará seu diagnóstico com o de outros profissionais.

Sua saúde mental merece diagnóstico preciso, não um diagnóstico lucrativo para os serviços assistênciais.

Informação é poder. Use-a para proteger sua saúde e seu bem-estar. 💡

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