Altas Habilidades

“Altas Habilidades e Superdotação: o Diagnóstico que Não Existe e o Custo que Ele Tem”

Cada vez mais pais chegam ao consultório com uma frase pronta: “Doutor, disseram que meu filho tem altas habilidades ou superdotação.” Muitas vezes acompanhada de um laudo caro, de uma “avaliação” que custou centenas de reais e de uma recomendação de terapias intermináveis. Isso soa agradável nos ouvidos dos pais mais apaixonados e desprevenidos (e se você está lendo até aqui, provavelmente não é esse o seu caso), mas esconde um perigo.

O rótulo “bonito” de AH/SD pode estar escondendo um transtorno da Classificação Internacional de Doenças (CID) não diagnosticado, em consequência, seu filho estará sem a abordagem necessária, tanto de terapias voltadas ao diagnóstico (do transtorno) como medicamentosa e/ou suplementação, pois os diagnósticos podem ser do neurodesenvolvimento ou clínicos como desnutrição proteica e de micronutrientes (ferro, B12, vitamina D, Zinco, Magnésio).

A Verdade que Ninguém Conta (e que Custa Caro)

Observe que pode existir uma “tendência” dos profissionais de educação e profissionais da saúde em engajar as famílias na crença de AH/SD em detrimento do diagnóstico médico, evitando que as crianças sejam avaliadas por Psiquiatra. Dessa forma, os pacientes sem a abordagem medicamentosa necessária no TEA, TDAH e DI (Deficiência Intelectual) ficarão mais sintomática, gerando “maior” necessidade de terapias e controle comportamental, por consequência mais rendimentos para as clínicas multiprofissionais.

A título de exemplificação e saindo no tema, conheço uma família que a mulher tem personalidade dependente, então se “casou” bem com o marido narcisista. Ele ficou todo deslumbrado e levava a filha adolescente para ajustar o aparelho dentário na Capital de outro Estado porque o dentista lá, foi ótimo marketeiro/vendedor e verbalizou para eles: “Que bom que vocês trouxeram ela aqui, porque o caso da sua filha é especial e raro e inspira muito cuidado que vocês não encontrariam fora daqui.”

O que a Medicina Realmente Diz

Altas habilidades/superdotação (AH/SD) não estão na CID (Classificação Internacional de Doenças) nem no DSM (manual de transtornos mentais). Não são um transtorno do neurodesenvolvimento, como são o autismo (TEA), DI e o TDAH. São um perfil de desenvolvimento — uma criança com potencial acima da média em uma ou mais áreas, descrito pela psicologia e pela pedagogia, não pela medicina.

Nos dias atuais, uma criança melhor nutrida (sem acesso a doces e salgadinhos), que durma cedo, faça a rotina de reposição de ferro, não tenha acesso a celular, toma sol, participa das rotinas de casa e não sofra de hipotireoidismo sub-laboratorial, certamente parecerá “superdotada”, se comparada aos pares ou até adolescentes que não sabem a Capital do Estado ou dar o endereço no cadastro do balcão do consultório.

O que existe na CID são códigos ligados à educação (como o Z55, “problemas relacionados com a educação e a alfabetização”) — ou seja, circunstâncias escolares, não diagnósticos de doença.

O Perigo de Acreditar num Rótulo Bonito

Uma criança vista como entediada e desatenta na escola pode ser TDAH e ficar sem tratamento. Uma criança com interesses intensos pode parecer autista e também poderá ficar sem tratamento direcionado. E uma criança com autismo leve e vocabulário avançado pode ser “promovida” a superdotada — atrasando a intervenção de que ela realmente precisa.

Por Que Encaminham para a Neurologia (em detrimento da Psiquiatria)

Observa-se na comunidade que escolas e serviços não médicos tendem a encaminhar as crianças com problemas na escola para a Neurologia, enquanto que, dever-se-ia encaminhar para a Psiquiatria. Na neurologia, o médico faz a obrigação dele, excluir doença neurológica, mas para o diagnóstico psíquico, ele acaba devolvendo o cliente para a clínica multiprofissional para “testagens e avaliações”.

Nesse ponto o mecanismo se retroalimenta e o que se nota é uma pandemia de diagnósticos equivocados de TEA, AH/SD nas crianças verdadeiramente portadoras de DI e TDAH. A Deficiência Intelectual geralmente NÃO é apontada na lista de diagnósticos.

Certa vez atendi uma menina de 12 anos com Síndrome de Down, super afetiva e comunicativa (exclui TEA), mas a colega neurologista, escreveu no laudo apenas Q90 (S. de Down) + F84 (Espectro Autista) e o F71 (DI) que em regra acompanha a S. de Down ela omitiu, mas o caso era somente F71 e as alterações comportamentais observadas se explicavam muito bem pela DI (critério E que exclui TEA no DSM).

Pode ser verdade que evitam apontar o diagnóstico de DI, porque pode “magoar” os pais e o profissional perde o vínculo com os reais clientes (os pais), por isso a tendência de se usar eufemismo para dar nome aos diagnósticos de prognóstico mais reservado.

O Caminho Certo (e o Errado)

  • Suspeita de TDAH ou TEA? Isso é avaliação médica séria, com história clínica, observação e instrumentos validados. Tratar quando há transtorno real muda a vida da criança. Estando em Cidades do interior é com psiquiatra geral, pois psiquiatra da infância está mais disponível nas capitais. É um equívoco ou interesse deliberado encaminhar para a Neurologia.
  • Suspeita de altas habilidades? É avaliação psicopedagógica/neuropsicológica — e o cuidado é educacional: desafiar, enriquecer o currículo, cuidar da saúde emocional. Não é remédio. Mas merece uma avaliação médica para excluir os transtornos da CID.
  • E lembre: uma criança pode ser superdotada e ter TDAH ou TEA ao mesmo tempo (tem um transtorno e realmente é superior [fora da curva] em habilidades). Uma coisa não exclui a outra. Nesse caso chegam a falar que a criança teria Dupla Excepcionalidade (isso soa muito bem nos ouvidos de pais deslumbrados).

Na nossa consulta, a criança é vista por inteiro: comportamento, escola, família, sono, alimentação e emoções. Nosso compromisso é com o diagnóstico correto — nem mais, nem menos — para que seu filho receba exatamente o que precisa: cuidado, e não um rótulo.

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